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Filhos adultos: quando o bebê já dá colo a você



É difícil ser mãe ou pai em tempos de tantas exigências. A gente corre de um lado e de outro para dar conta da vida e, quando vê, o tempo passou. A fase adulta dos filhos é um período pouco descrito, como se após a adolescência os pais fossem alforriados daquelas criaturas exigentes de nossos cuidados. Ao se tornarem adultos, porém, nos proporcionam momentos maravilhosos, libertadores. A gente se livra da atribuição de ser sábio, de ter sempre a razão, da obrigação de educar.





É gostoso poder falar sobre tudo e aprender de maneira especial sobre o novo mundo, do qual abrimos mão por um bom tempo para preparar esse outro adulto. É interessante refletir sobre o caminho das relações entre pais e filhos quando podem conversar de igual para igual.

Mari, meu amor, e eu
Comigo aconteceu assim: ela cresceu, mas só fui me tocar disso um tempo depois, porque talvez não quisesse admitir. Certa sexta-feira à noite, eu sentada no sofá, lendo, de repente surge do quarto a mulher mais linda que já havia visto. Seus cabelos compridos e loiros pareciam trigo dourado, meio encaracolados e cuidadosamente ajeitados sobre um dos ombros nus, aparentes no elegante vestido de alcinhas, com caimento que ressaltava a beleza do corpo perfeito. Do alto de seus saltos e com um brilhante sorriso nos lábios pintados de vermelho, ela se voltou para mim: “estou indo, mãe!”. Era minha doce Mariana indo para uma festa de casamento em que era madrinha. O bebê que carreguei e carregaria para sempre, havia se tornado uma mulher deslumbrante e, embora eu tivesse acompanhado essa evolução por mais de 20 anos, me pegou de supetão o fato de eu a enxergar agora como adulta. Não tive dúvida: antes de dar a bênção para que ela saísse, pedi colo. Segurando a pashmina e a clutch em uma das mãos, ela riu quase que me fazendo perder a dignidade e com a outra mão me fez um carinho, abraçou, beijou e saiu, levando meu coração. Eu chorei... por quê? Porque sim... ser mãe é a aventura mais emocionante da minha vida.

Ainda sou jovem, fui mãe aos 19, mas de repente passei a “trombar” constantemente em casa com aquela outra jovem, outra mulher no mesmo ambiente e não mais a criança ou adolescente. Os papos evoluíram, me deixando por vezes sem saber o que dizer para que não errasse na conduta, afinal eu talvez ainda estivesse colaborando para a educação daquela pessoa... não sei. Com o tempo fui relaxando e me deliciando com as novidades, como a capacidade dela de assuntar sobre um cotidiano mais amplo, a sabedoria na colocação das interpretações, a discordância por vezes sobre determinadas questões e a risada madura-infantil sobre as bobagens que eu dizia (dizem os estudiosos que sou engraçada).

Minha amiga Andrea Petrin Foltran, 37, terapeuta holística e uma danada que faz alfajores deliciosos na sua empresa Espalhando Amor, nome lindo, foi mãe aos 17 e apesar de todas as transformações, só a partir da adolescência de seu Rafael foi que ela se sentiu transformada. “Conversamos sobre tudo, sem preconceitos ou tabus. Nossa relação é muito linda, ele é um gentleman, inteligente, crítico. Viajamos, saímos juntos com os amigos e a conversa flui como se não tivéssemos diferença de idade. Ele se tornou um jovem adulto consciente, por isso não me sinto dona da sabedoria de mãe, hoje aprendo muito com ele.”

Quando conversei com ela para escrever esse texto, o Rafa, 20 anos, estudante de Direito e músico, fez questão de opinar. Orgulhoso e consciente das dificuldades da mãe na maternidade aos 17, ele crê que o amor que recebeu foi o alicerce para se tornar um adulto de bem. “Além da nossa relação mãe e filho, somos grandes amigos. Eu tomo minhas decisões, mas ela sempre me aconselha da melhor maneira, atenciosa e paciente em todos os momentos.”


O amadurecimento dos filhos, acompanhado da independência, por vezes também é difícil para os pais. Para minha mãe foi, mais em relação aos meus irmãos do que a mim, pois saí muito cedo de casa e sobraram os outros três. 

Três gerações: a filha da minha mãe é a mãe da minha filha



Alguns pais desenvolvem a tal síndrome do ninho vazio, o que é compreensível, pois até outro dia estavam cuidando e dedicando a vida a essa criatura que chegou de presente. Mas é preciso respeitar, tentar não cobrar a presença e lembrar que eles agora também têm vida corrida. É preciso pensar que a própria vida são ciclos que se fecham para que novos comecem. A alegria de ver um filho tornar-se independente e feliz é, assim, como a boa sensação do dever cumprido. Você fez e deu o melhor de si.


Nas palavras de José Saramago, “filho é um ser que nos emprestam para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos.” 

E amar os filhos é a coisa mais saudável que podemos conquistar na vida. 

Beijo carinhoso, 

Dani





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